22 de nov de 2008

Opinião

MENTIRA NO HORÁRIO NOBRE

Enquanto as pessoas assistem aos últimos e eletrizantes capítulos da novelinha global, os intervalos comerciais invadem sua casa para alardear propaganda enganosa. Essa frase não é surpreendente em tempos de capitalismo voraz que lhe enfia guela abaixo mulheres lindas ao celular, bonitões no carrão, cremes de roupagem ecológica, entre outras parafernálias sem conteúdo. Tudo para fazer você comprar mais. O problema é que a última moda da propaganda enganosa vem do Governo do Estado: da Sabesp.

Desde o final do ano passado a Sabesp – Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, empresa pública que tem a concessão dos serviços de coleta, disposição e tratamento de águas e esgotos em alguns municípios do Estado (dentre eles, todos do Litoral), vem inserindo propagandas de 15 ou 30 segundos no horário nobre da TV Globo, entre outros canais. Como todos sabem, o horário nobre – considerado aquele mais caro para os comerciais da televisão -, é o que compreende o período entre o Jornal Nacional e a novela. Até aí, nada de mal. A não ser que a mensagem seja uma mentira.

Para quem ainda não viu, a propaganda consiste em algumas palavras escritas na areia da praia, do tipo “poluição” ou “esgoto”, que uma onda de águas claras vem e apaga, como qualquer palavra escrita sob a areia nessas condições.

Enquanto isso, um locutor garante que a empresa está investindo milhões no litoral, que é isso e aquilo. Ao final, a palavra “qualidade de vida” é escrita na areia, a onda vem e – incrível! -, não consegue apagar. Ela permanece. A moral da estória (sem “hi” mesmo) é que, graças aos esforços da Sabesp, essa tal qualidade está garantida para todos no litoral paulista.

Pura ilusão, infeliz enganação.
Como imaginar que uma empresa, instalada por força de um contrato mal redigido na época da ditadura militar (entre 1972 e 1974), que se obrigou a cuidar de 100% dos municípios (água e esgoto), passados mais de 30 anos, ainda não conseguiu cumprir nem a metade de suas responsabilidades assumidas? Isto porque, na melhor hipótese, as metas de fornecimento de água atingem 60% da população, na média (excluindo Ilhabela dessa conta).

Uma marca fantástica para a empresa, mas dramática para quem vive aqui. E para entender isso, basta dizer que para cada gota de água que entra na nossa casa, uma gota de esgoto tem que sair. Acontece que a média da cobertura de esgoto cai para 30% (exclua Ilhabela outra vez). Isso em sistemas de tratamento de péssima eficiência.

Quer isso dizer que a empresa está muito preocupada em lançar contas de água, até porque é mais barato instalar a rede de água e o retorno financeiro é bom. Já quanto ao esgoto… ah, esse deixa para depois! Afinal, dizem eles, esgoto no litoral é complicado, acidentes geográficos são barreiras naturais, há necessidade de altos investimentos para atingir metas de cobertura, e o mar é grande o bastante para esconder as mazelas das estações elevatórias que vivem a queimar bombas e esparramar cocô puro nas praias. Ou ainda para encobrir emissários submarinos ultrapassados que operam sem licença ambiental, como é o caso do Araçá, em São Sebastião. E igualmente espalham coliformes fecais para todos os lados.

Vale lembrar: Ilhabela não pode entrar nas contas, senão coloca os números numa situação muito mais trágica. É que lá os índices de cobertura de água baixam para menos de 20%, obrigando a população a buscar sistemas clandestinos de captação para suprir seus lares. E o esgoto despenca em assustadores 2% de tratamento. Em outras palavras, do total da produção de esgotos no arquipélago, apenas uma ínfima parte é tratada. São indicadores de uma mundialmente badalada localidade, que envergonhariam o mais inescrupuloso dirigente de um país paupérrimo. Só não envergonham os daqui.

Sem investimentos de verdade, já que todos os milionários valores alardeados nas propagandas da TV nem de longe tratam dos reais problemas do litoral, e sem uma política que enfrente a caótica situação de saúde pública, continuaremos a ver bandeiras vermelhas tremulando em nossas praias, saudando turistas que pagam caro por uma pousada, mas nadam na merda. Turistas no verão, moradores o ano inteiro.
Para a Sabesp, investir em saneamento pode ficar para depois. Agora o que interessa é gastar bastante no horário nobre.
Quem eles pensam que estão enganando?


Eduardo Hipolito do Rego, 43, é advogado, professor da FASS, Mestre em Direito Ambiental, representa o Litoral Norte no Conselho Estadual do Meio Ambiente e é Presidente do Grupo Setorial Litoral Norte do Gerenciamento Costeiro.
edu_h_rego@hotmail.com

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